A teimosia de escrever

A teimosia de escrever
Escrevo quase todos os dias. Não cumpro nenhum ritual ao me sentar para essa hora sagrada. Não escrevo apenas por inspiração, mas muitas vezes pela situação. Nem sempre medito sobre o que escrever, até porque ás vezes, não dá tempo, a necessidade é mais urgente.
Mas, ás vezes, a inspiração me arrasta para o teclado e começo. Daí em diante, simplesmente deixo de ser dona dos pensamentos.Tem dias que chego ao teclado com uma frase mal esboçada – frase sem gabarito de sentença. Basta rabiscar as primeiras idéias e algumas palavras já se rebelam, seguindo o próprio curso.
Escrevo por me sentir desafiada pela metáfora, analogia ou parábola. Fico fascinada por figuras de linguagem, que não só ilustram como revelam os conteúdos mais intensos da palavra. Na metáfora, paz e criança dormindo se igualam. Deus se evidencia numa sarça em fogo, que não se consome. O paraíso fica nas margens de um rio juncado de árvores cujas folhas servem para a cura das nações. Achar a metáfora inédita se transforma, portanto, no maior desafio de quem ousa desafiar as palavras.
Escrevo porque acredito na palavra impressa. Só na grafia está o poder de derrubar tiranos, enaltecer a justiça, destruir preconceitos e expandir consciências. A palavra escrita permanece viva e eficaz. Os livros sobreviverão ao mundo virtual. Até os melhores tribunos precisam redigir seus discursos. Os mais eloquentes pregadores corrigem a fala antes de subirem ao púlpito.
O escrito escondido confere densidade ao palestrante que os ouvintes sequer imaginam. Quem escreve nunca tagarela. O contrário também é verdadeiro, o discurso só pode ser considerado bom se conseguir virar texto.
Escrevo sem saber o impacto do texto. Sei que serei filtrada por diferentes análises, em diferentes contextos, a partir de diferentes preconceitos e com diferentes expectativas. Acredito que a palavra nunca retorna vazia para o criador. Antes provoca curiosidade, discordância, aceitação ou crítica.
Tudo o que se redige fica e desafia para uma reflexão mais profunda. A palavra, espada de dois gumes, divide e salva. O bom escritor, hábil, só precisa de uma boa e sensível inspiração para deixar o leitor de joelhos.
Quem lê viaja e reconhece nas palavras gigantes como Shakespeare, Camões, José de Alencar, Machado de Assis, Rubem Braga e Graciliano Ramos. Leio suas obras e reconheço: não passo de uma aprendiz entre gênios de primeira grandeza. Ouso publicar, postar e divulgar minha redação por acreditar que vale a pena deixar um pedaço da alma para a próxima geração.
Texto adaptado de Ricardo Gondim

0 comentários :

Postar um comentário